Carta de Frei Christóvão de Lisboa Veja a carta testamento deixada pelo precurssor da história de Santana do Acaraú

10/07/2011 16:59

“A quem me poderei dirigir neste momento, no meio das selvas que ocultam milhares de inimigos? Não sei! Mas obedecendo aos impulsos do meu coração, que se embala na confiança que deposito nos Céus, vou enunciar o meu pensamento, pois que a morte com as suas garras medonhas, ameaça abafar-me a voz. Escreverei o meu voto a Providencia, quando não possa cumprir, entrego à sua execução.
Portugueses! Franceses! Holandeses! Perante Deus nos todos somos irmãos. A religião católica é o laço que nos prende nessa doce fraternidade, que constitui a grandeza do homem sobre a terra. O que hoje nos divide não sirva de base para ódios eternos: O vencedor deve ser indulgente e o vencido deve submeter-se a sua infelicidade. Aquele, pois, que vencer e se apoderar deste país, não esqueça que nisso houve um favor da Providencia. Deve portanto, corresponder a tanta beneficência, e o meu voto proporcionar-lhe uma oportunidade para manifestar o seu reconhecimento. O amor da religião me fez depor os cômodos de que gozava e por ínvias florestas, ainda não atravessada pelo estrangeiro, cheguei a este lugar, onde sobre uma laje, que me serve de banca, escrevo estas linhas, que um dia recebereis.
    Prestai-lhe seria atenção; elas vos guiaram a dois tesouros - um material e outro espiritual. - O 1.º vos dará bens e riquezas na terra; o 2.º vos preparará gozos infindos na mansão celeste.
    Eleito para custodio do Maranhão, a cujo estado se acha ligado o território do Ceará, empreendi por terra ao fortim do Amparo esta viagem, e parti dali do dia 13 de Maio passado, em companhia de 04 padres e 25 homens de armas. A serra da Ibiapaba, a Leste, foi o meu primeiro rumo, do qual depois forçoso me foi desviar, descendo ao Norte, para evitar o gentio que nos embaraça o passo. Já havíamos vencido as escabrosidades que o terreno nas suas imediações nos oferecia. Já nos preparávamos para levantar nossas tendas e repousar de fadigas, quando um acontecimento extraordinário nos veio surpreender, ao pôr do sol. Um bando de 90 tapuias, com inconcebível algazarra, acometeu-nos com tal violência, que na sua fúria, nos faria sucumbir, se Deus, a quem dirigi meus rogos, não tivesse encorajado os homens que nos defendiam.
    Nessa luta, tremenda e desesperada, fomos vitoriosos. Os tapuias fugiram, porém, ocultando-se na mata, de quando em vez nos despediam suas flechas que passavam por sobre nossas cabeças, ora caindo alem. Não podemos, portanto, levantar as tendas. A jornada continuou no meio da noite, que se aumentava de trevas na espessura do emaranhado bosque, que atravessamos. Caminhamos toda noite, e no dia seguinte, tendo descido mais ao Norte, aquela ponta da Ibiapaba de que fugíamos se mostrava ao longe verdejante, admiravelmente viçosa. Estávamos a três léguas mais ou menos distantes; eram nove horas da manhã, quando uma chapada se nos abriu adiante; ali levantamos as nossas tendas para nos refazer de forças. Os nossos homens saíram a bater as cercanias, explorando o inimigo, e de volta, duas horas depois, nos trouxeram água e com eles um índio, que conduzia às costas um fardo envolto em peles de veado. Vestia apenas ceroula de algodão, tendo ao lado pendente, um arco e o seu carcaz, depósito de inúmeras e mortíferas setas. A fisionomia, conquanto desconfiada, era amigueira. Falava mal o português, mas ajudado dos gestos, se fazia bem entender. Era da tribo dos Potiguares, natural do Rio Grande do Norte, donde partira em Maio de 1603, fazendo parte, com Martin Soares Moreno, de uma expedição, que Pero Coelho de Sousa conduzia de Pernambuco ao Maranhão.
    As suas revelações são de todo ponto importantes, entre outras, que por extensas omito. Mencionarei as seguintes: 
- Que essa expedição naquele mesmo tempo, de passagem, tocara na costa do Mucuripe, a uma légua do qual Coelho levantara um forte, que denominou de São Tiago; - sendo a terra batizada pelos da sua tribo, com o nome de Ceará. 
- Que Coelho ali pouco se demorou. Seguiu a sua derrota, e do Maranhão partira com forças expedicionárias até a Ibiapaba, aonde, em 1604, pretendeu se estabelecer. 
- Que os Tapuias o receberam mal, revoltaram-se os índios, aliados ao francês Mambilli, sendo ultimamente rechaçado em cruenta guerra, por Mel-Redondo, chefe dos Tabajaras, e por Jaryparyguaçú, chefe dos Tremembés, vendo-se obrigado a fugir. 
- Que ele, ferido, não pudera acompanha-lo, e ali se demorou, sendo vigiado pelos índios, até 1608, quando se evadira em companhia do Missionário Luiz Figueira, que também fugia conduzindo os restos mortais do padre Francisco Pinto, vítima dos Tapuias. 
- Que checando ao Ceará, um ano depois, se juntara à Martin Soares Moreno, nomeado Capitão-mor, e como seu afeiçoado, com ele seguira, em 1613, para o forte do Rosário, na Jericoaquara, onde, não tendo Moreno voltado de uma viagem rápida ao Maranhão, ele continuava a espera-lo, constituindo-se, na sua ausência, chefe dos índios Camocins, que aderiram à causa portuguesa. 
- Que, finalmente, por ali onde o encontramos, andavam concitando os ânimos dos seus aliados para opor embaraços aos holandeses, que em grandes navios, bordejavam em frente dos portos do Camocim e Jericoaquara.
    Soubemos então que aquele violento acometimento dos Tapuias, procedia ainda do ódio que devotavam à Pero Coelho, e compreendemos o estado da nossa desgraçada situação.
    Desanimados, não sabíamos deliberar. Íamos fazer conselho, quando o índio, debruçando-se no chão, um minuto depois, rápido como a onça que se lança à presa, saltou nas suas armas dizendo: 
- Silencio! Nem mais um instante. Partamos! 
Cegamente obedecemos aquele homem a quem o susto fizera seguir sem reflexão. A marcha era apressada no rumo nordeste, e ele caminhava na frente abrindo a mata, cujos ramos pareciam flexíveis ao contato dos seus reforçados ombros. Duas horas depois de uma marcha sempre ativa e fatigante, chegamos a um ribeiro, que o nosso guia chamou - Camocim - ali, estáticos, assistimos a uma cerimônia que não podemos compreender. O índio apanhando na margem um grande lagarto atravessou-o pelas costas com um farpão de uma flecha, guarnecidas com plumas de guará, e depois fincou-a no leito, como baliza, sobre um banco de areia. Tudo aquilo foi rápido. Continuamos a nossa derrota, e a 100 passos dali paramos, porque o índio parou. Ninguém falava. O sol estava à pôr-se e entretanto no meio das selvas a noite já havia começado. A nossa inquietação era excessiva. Já nos levava a pedir explicações ao índio, quando, um rugido pavoroso, atroador, retumbando na floresta, fez estremecer a terra que pisávamos. De joelhos caímos todos e orávamos fervorosos, quando o índio que ficara sentado, levantando-se nos disse em tom calmo e gracejador:
- Rezar é bom, amigo, melhor será ainda depois que tivermos ceiado. 
Pareceu-me aquilo uma blasfêmia. O índio afigurou-se-me naquele momento, em que a morte tínhamos como certa, a imagem de satã que nos queria distrair da oração. Não lhes respondemos, e então ele alçando a voz, continuou: 
- Nada tendes a temer. Aquilo que vos aterroriza, é justamente o que vos deve alegrar. Uma infinidade de índios, contra os quais nada poderiam fazer vossos homens de armas, marchava em vossa procura quando debruçado no chão, ouvi-lhes o tropel. Foi então que vos aconselhei que fugísseis. Eles seguiram na nossa batida, mas, deparando com a minha flecha, surpresos bramiram de raiva, não podendo passar além. Eles conhecem os índios da costa, e sabem quanto vale o chefe Camocim. Leram no símbolo que lhes deixei, - a guerra na cor encarnada da pluma da flecha, - e a morte, até de “emboscada”, no lagarto que pelas “ costas espetei ”.  Aquela flecha foi “um marco” que lhes estancou o passo. Eles já voltaram. Estais salvos. Vamos á ceia que ainda hoje não comi!
 E de fato, um instante depois, novo ruído atroou os ares e se foi repetindo ao longe, ecoando de vez em quando, aos ouvidos, até que afinal, desapareceu de todo. No dia seguinte partimos. Foi-nos preciso evitar as cercanias da Ibiapaba, que estendia-se ao Sudoeste, e tomamos o rumo Nordeste. Seguimos, e adiante uma serra redonda, que o índio chamou de Meruoca ou das moscas, se erguia à distancia. Fizemos uma meia volta e paramos ao Norte daquela serra. A sua verdura foi objeto da nossa admiração. Magnífica era a sua perspectiva. Soberbos cabeços se elevavam aos céus. Eram vicejantes até as suas extremidades. Parecia um ninho de frescura, que Deus em sua Alta Sabedoria, ali construíra para reagir nos desvios das estações. Entre nos e aquela serra estendia-se um serrote do qual um pouco pedregoso se erguia às alturas. Pousávamos na planície junto a um olho d’água, que, em borbulhões desprendia uma torrente límpida, abundante. Dali seguimos no rumo Sudoeste, ladeando a serra.
    Já tínhamos caminhado muitas léguas e nos dispúnhamos ao descanso quando ouvimos na mata, a pequena distância uma algazarra que parecia um choro infernal. O índio tirou fora a camisa, e para lá se dirigiu. Soubemos então na sua volta, que ali havia uma taba de Tapuias, inofensivos, e que choravam a morte de seu velho chefe, Coco Chyny. Agitados, pernoitamos na mata dos Tapuias, e ao alvorecer da manhã, partimos no rumo leste. Em seguida atravessamos um ribeiro que nascia daquela serra, tendo-nos antes demorado à sua margem até que nos desse passagem. Ao longe vimos um serrote. 
- Ali, disse o índio - descansareis dos vossos sustos, porque os Tapuias não vos perseguiram mais. O rio Acaraú é uma linha que os divide entre os Arariús. Naquele serrote assentaram os chefes de uma e outra tribo nessa convenção, como entre nos no rio Camocim. Entre os índios há leis que se cumpre religiosamente.    
    A esperança começou a renascer nos nossos corações desde aquele ribeiro, cuja passagem celebrizamos, comparando-a na nossa peregrinação, com a do Mar Vermelho. Veio-nos a idéia de salvação. A sofreguidão para alcançar o serrote indicado, animava a comitiva, e o nosso passo era apressado. Ao meio dia chegamos à margem de outro ribeiro. Ali parou o índio dizendo-nos: 
- Eis o Rio Acaraú, ou rio das garças, na linguagem indígena. 
Atravessamos aquele rio, cujas águas, desviando dos montões de areia que havia no leito, abeiravam-se das margens, onde corriam com pequena largura, apenas nos cobriam os pés. O serrote demorava-se a meia légua daquele sitio. Seguimos na sua direção, ofegantes, cheios de emoções. Uma hora depois chegamos às suas cercanias. À esquerda, uma cordilheira pedregosa e à direita, o serrote majestosamente se erguia, coberto de vicejante floresta. Entramos entre ambos, numa espécie de vale e passamos à sua raiz, onde gigantescas árvores entrelaçando as suas frondosas copas, formavam, à considerável altura, uma abóbada verdejante, derramando sombra e frescura naquele recinto, cujo pavimento se cobria de um verde e macio tapete de relvas. Maravilhoso espetáculo! - Ali, penedia talhava-se precípite, do nosso lado e na altura de 15 palmos, uma laje sobreposta, destacando-se dela, avançava no espaço para nos, meio inclinada, formando um docel original. No fundo, debaixo daquela laje, três largas pedras que pareciam servir-lhe de contraforte, sobrepondo-se umas às outras, apresentavam dois degraus regularmente dispostos: De um lado, pela fenda de uma rocha, como se ali houvera uma torneira, um tubo d’água, com o diâmetro de uma polegada, saía em jorro, precipitando-se numa cavidade que a natureza caprichosamente fizera na pedra, á imitação de uma pia. - Ao todo, apresentava um altar, que nos convidava à oração. Ligeira foi a sua contemplação. O quadro sugeriu a todos a mesma idéia, e fomos colocar ali as Imagens que trazíamos. Foi então que vimos com surpresa a de Cristo despedaçada. Salvara-se, porem intacta, a da Senhora Sant’Ana, que tinha nos braços a da Santíssima Virgem. E sobre aquele tosco trono, já ornado de folhas e flores silvestres, a colocamos ajoelhando-nos à seus pés.
    Oramos. E naquela hora em que o coração compenetrado-se dos mais puros sentimentos de religiosidade, faria voar o pensamento aos artigos da celestial mansão, prometi aquela Santa em troca dos seus favores, erigir-lhe uma capela naquela solidão, onde mais tarde, os fieis fizessem eternizar o seu culto e adorações sob a denominação de Nossa Senhora Sant’Ana do Olho d’água. Eis senhores, o voto que ontem fiz chegando aqui, depois de 30 dias de perigosa viagem. Hoje prosseguiremos a nossa jornada e como não é certo chegarmos ao seu termo, apresso-me a escrever estas linhas que um dia, dadas as minhas previsões, a Providência os fará receber. No cumprimento desse voto, se ele me for vedado, obtereis a proteção Divina, e na sua execução, esquadrinhando o solo que vos descrevo, colhereis frutos e outros proventos que compensaram o vosso trabalho. Terminada a nossa oração, à convite do índio subi ao monte. Dificilmente chegamos ao seu ponto culminante. Dali se via ao Norte, os morros de areia da praia na distancia de 20 ou mais léguas. Encantador era o painel, que se ostentava aos olhos naquela vastidão, eriçada de um e outro lado por uma cadeia de serrania, que se terminava no horizonte. Depois o índio voltando-se ao poente disse: 
- Ali, a uma légua deste morro, mais ao Sul, na margem oposta do Rio Acaraú, um monte que se cobre de pedras pretas, encerra no seu seio uma jazida de prata, cujo pó alvíssimo, é abundante. Os seus produtos poderão concorrer para a realização da promessa que fizeste. 
E voltando-se, finalmente, para Leste apontou: 
- Lá vai o seu caminho. Segue à direita daquelas serras, fugindo às suas imediações.
    Ele calou-se, beijou-me a mão, e veloz como o gamo, desceu na penedia, escorreu pelos talhados, e sumiu-se sem o menor estrépito.”
    Serrote do Olho d’Água, 16 de Junho de 1626.

Frei Christovão de Lisboa.